Vamos Ocupar Mais Espaço

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Por Isabel Sachs

Cindy Sherman (n. 1954, EUA) não foi a primeira fotógrafa a fazer autorretratos, mas sua exploração sobre identidade a representação a partir da transfiguração em determinados personagens é um marco na arte contemporânea. E, recentemente, tenho sentido sua influência em todos os lugares.

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Na Bienal de Veneza, as fotos de Zanele Muholi (n. 1972, Africa do Sul) - que se denomina uma “ativista visual”- permeavam a exposição central. Seus auto-retratos em preto e branco já nasceram icônicos. Em qualquer escala, é impossível passar desapercebido. Seu trabalho presta uma homenagem à experiência feminina africana, reimaginando a identidade negra de forma intrinsecamente pessoal e política.

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Desde o século XIX, o retrato fotográfico permitiu que os negros se representassem como gostariam de ser vistos, sem a visão externa e opressora do mainstream branco, cujos estereótipos criaram um ódio enraizado ao corpo negro. Muholi também fundou o Inkanyiso, um coletivo de ativismo queer e mídia visual que responde à falta de histórias visuais e treinamento produzidos por e para pessoas LGBTI, especialmente artistas).

“Muitas vezes acho que estamos sendo insultados, imitados e distorcidos pelo ‘outro’ privilegiado. Muitas vezes nos encontramos em espaços onde não podemos declarar todo o nosso ser. Estamos aqui; nós temos nossas próprias vozes; Nós temos nossas próprias vidas. Não podemos confiar nos outros para nos representar adequadamente ou permitir que eles neguem nossa existência. Por isso, estou produzindo esse documento fotográfico para encorajar os indivíduos de minha comunidade a serem corajosos o suficiente para ocupar espaços - corajosos o suficiente para criar sem medo de serem vilipendiados, corajosos o suficiente para aceitar esse texto visual, essas narrativas visuais. Ensinar as pessoas sobre a nossa história, repensar sobre o que é a história, recuperá-la para nós mesmos - encorajar as pessoas a usar ferramentas artísticas, como câmeras, como armas para revidar.” - Zanele Muholi

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De volta à Londres, Haley Morris-Cafiero fez parte da feira de fotografia PHOTO LONDON com seu mais novo projeto, The Bully Pulpit, investigando o fenômeno de cyberbullying através do perfil online destes “críticos”, geralmente escondidos atrás de telas.

Haley se transforma nessas pessoas, sobrepondo imagens cômicas, mas críticas, aos comentários usados para ofendê-la, alterando o balanço de poder desses gestos.

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“Percebi que posso fazer uma paródia dessas tentativas de bullying ao criar essas imagens e publica-las online, ou seja, usando o mesmo veículo usado nos ataques “ - Haley Morris-Cafiero

Grande parte das críticas fazem alusão ao seu corpo; mais uma vez, um corpo ousando ocupar um espaço onde em geral encontra opressão, e mais um comentário sobre o outro exercendo controle na imagem feminina.

Fica aqui um desabafo: até quando vamos ter que enfrentar isso?

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Manuela Rahal