Não há mais muitos como nós

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Por Gaía Passarelli

Achei a frase num conto do Ray Bradbury. Eu quis pensar nela e usar em algo sobre como somos especiais, belos, espirituosos, inteligentes, graciosos. Como somos incríveis quando estamos dançando entre os nossos. Como somos todos tão parecidos em nossos bons gostos, bons hábitos, boas histórias. Que por isso atraímos uns aos outros. Mas na história do Bradbury, passada em Dublin como quase toda a obra do escritor, a frase tem outro sentido, mais amplo. Vem de um pedinte que vive perto da ponte por onde o protagonista narrador sempre passa. “Não há mais muitos como nós,” mas nós quem? A frase afunda um abismo. Há poucos de nós ou de vocês? Tem a petulância de dizer "nós" para um homem de classe social diferente, tem a sensatez de lembrar que somos todos humanos, tem a intenção de acalma-lo como quem diz "liga não, há cada vez menos digos aqui.” Nunca ouvi frase similar de alguém da população de rua ali no Vale das Sombras entre a República e o Arouche. Mas aqui em São Paulo há cada vez mais de nós. Na minha vida “nós”, eu e os meus, significa cada vez menos pessoas que conseguem se entender numa base diária. Há cada vez mais de nós, doentes acometidos dessa febre interna sem nome. Aqui em São Paulo há cada vez mais de nós vagando a esmo por pistinhas e balcões procurando companhia e tratamento. Há cada vez mais desesperançados e há cada vez mais, muitos mais deles, sem-tetos de toda sorte e azar. É sim, pode ir lá fora ver, principalmente em dias frios como hoje: eles estão à vista, nós podemos ver. "There's only a few of us left!” Você pode escolher se somos nós, eu e você ou nós, eu e eles. Mas aposto que você vai passar andando pela calçada como se não estivesse vendo. Eu também passei. // ps: chama "The Beggar on O'Connell Bridge", é de 1961 e dá para ler aqui.