O Tom Esquizofrênico No Gesto Arbitrário

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Por Dani Branco

“Um homem pode sobreviver a todos os seus amigos e parentes, enterrar aqueles que mais ama e levar uma existência solitária como um estrangeiro numa época estranha; mas não pode sobreviver a si mesmo e aos fatores internos da sua vida, e não pode enterrá-los, pois eles são seu verdadeiro eu e, assim, são inalienáveis.” C. G. Jung, O Livro Vermelho

Somos resultado de uma história, individual e coletiva, inconsistente e perdemos todas as certezas. Sem consciência do que está acontecendo, estamos há anos no automático processo de desejar que nos faz ficar pulando de galho em galho em uma busca incessante pelo progresso material para garantir a felicidade!

Negamos nossas origens, nosso passado e história (de novo, individual e coletiva) e insistimos em ir exclusivamente para o lado daquilo que cada um acha positivo. Comum são os apontamentos para o lado positivo quando falamos sobre nós mesmos e aquilo que julgamos como ruim, negativo, falho jogamos para o outro. Vivemos a era da terceirização. Acreditamos que somos conhecedores de todo aparato histórico do ser humano e nos tornamos pseudos modernos negando o passado para viver o presente e, com um medo constante do futuro incerto, vivemos dissociados. Buscamos uma alma, um sentido e fazemos qualquer coisa para encontrar um sentido.

Ainda não aprendemos a dominar a nós mesmos, mas dominamos a natureza! Inventamos coisas perigosas, máquinas e afins e nos tornamos dependentes de toda a tecnologia existente. Lembra que na Idade Média existia Deus e o homem primitivo tinha certeza que era uma extensão dele. Ao cair uma árvore ele sofria, pois sentia como se amputasse um braço seu. Nos afastamos de toda essa natureza, da essência, da base. A ciência prometia um maior conhecimento, uma libertação do homem que estava preso a uma divindade, pagando indulgências para não irem pro inferno. Ainda fazem isso hoje em dia! Quando que o progresso material se tornou uma indicação de evolução?

Vivemos um momento que apesar de todo desenvolvimento tecnológico, científico e material, assistimos uma procura crescente de aspectos espirituais. Se criam seitas, templos, vertentes religiosas diferentes, a busca pela yoga, pelo tarot, astrologia, meditação, teosofia, antroposofia, uma explosão de buscas. Esse tanto de caça a outras alternativas se justifica? Acho que sim, a medicina tradicional já não dá conta da sua tarefa, nem a religião isolada. Parece não existir um único foco e certamente o achado não está do lado de fora. Enquanto o ser humano não se reconhecer pertencente e partícipe do desenvolvimento dessa história tomando consciência da sua participação vai ficar sempre no lá fora.

Hoje em dia defendemos com veemência a individualidade. Ter direito de ser você mesmo, direito da sua individualidade, seu tempo, suas vontades, seus desejos. Vemos todos os tipos de cursos e textos, perfis no instagram prometendo revelações de segredo como os 10 passos para alcançar a felicidade! Fato é que precisamos de referências senão a gente se perde e hoje todo mundo tem direito a tudo. A equação não fecha porque para alguém conquistar o direito de uma coisa outro alguém deverá perder algum outro direito. Como em uma estrada recém pavimentada sem sinalização e faixas de referência. Nós precisamos desses limites (não muros) para poder sinalizar quando queremos mudar de faixa para não bater no outro. Uma faixa de orientação, de limite.

Tudo que a gente nega em termos psicológicos não deixa de existir e vai se manifestar na mesma proporção que foi negada. Aparece como esse mundo subterrâneo que escondemos e viramos as costas. As trevas. O quanto a gente nega da nossa essência dos aspectos que são deixados para trás, mas que são nossos? E sempre vão se manifestar de forma negativa porque estão sendo negados. Ficamos indiferenciados, não nos permitimos entrar no desenvolvimento real e árduo. Desde pequenos agradamos nossos pais. Identificamos o que faz eles sorrirem e o resto escondemos atrás de nós mesmos, mas carregamos isso por onde vamos e vai crescendo, ficando pesado, mas queremos fazer parte e não mostramos as coisas que não gostamos mais em nós, pois aprendemos que não agradam. Mentimos, omitimos, fugimos. Tapamos o sol com a peneira e de repente não conseguimos mais andar por causa do peso morto. Escolhemos não olhar para isso e adoecemos. As patologias são resultados disso.

O inconsciente é ilimitado. A consciência limitada. Ainda assim ambos são complementares na mesma medida. Como questionamos o que é real? Se não existir um homem que ateste a existência de Deus, então este não existe. A razão é importante, mas isso não torna o irracional pejorativo como algo que não tem valor, que é bobagem. O ser humano desorientado e perdido tem ações completamente sem sentido. Então aquilo que consideramos como morto, por exemplo, o passado que está morto é um equívoco. O passado está vivo e faz parte de nós. Quando consideramos morto ele vira fantasma e começa a nos assombrar. Adianta a gente correr, fugir, não olhar para trás, responsabilizar o outro do que é nosso, daquilo que ainda está na nossa sacolinha? Em tempos líquidos, se correr o bicho pega se ficar o bicho come. O nosso problema de ser humano moderno contemporâneo é ter nos afastado de nós mesmos. É achar que a gente vai se livrar terceirizando e negando. A culpa é minha e faço com ela o que eu quiser e escolho colocar no outro. Por que vivemos assim? Porque o ser humano massificado é um homem inconsciente. O coletivo solitário. Escolhemos o que escolhemos pela falta de consciência dos nossos aspectos internos. A psicanálise fala do saber-se sujeito, reconhecer-se sujeito portanto, assumir responsabilidade.

Devemos celebrar diversos desenvolvimentos científicos, mas foi isso também que nos trouxe até esse momento de desorientação, de confusão, de falta de referências incessante que nos faz sentirmos esvaziados. Falta alguma coisa e não sabemos o que é e então pulamos e pulamos de galho em galho…

Quem hoje é capaz de se curvar tão baixo? Ser humilde, aceitar e esperar. Enxergar o outro e a si mesmo e baixar a bola desse “eu tudo posso”. Se não nos curvarmos a essa esfera que nos pertence única e exclusivamente, não daremos conta de alcançar essa pseudo-plenitude que a gente busca tanto. Para aceitar que a busca não é pular de galho em galho. É a aceitação, o curvar-se. Equilibrar a treva e a luz para ser completo. Esta mudança só pode germinar em um individuo isolado disposto a promover uma transformação própria. A gente não sabe exatamente o que fazer, mas se cada um fizesse um deep dive realmente determinado a encontrar algo em seu inconsciente que fosse útil para além de si próprio, talvez conseguíssemos reencontrar o sentido e a segurança para enfrentar o estado atual do mundo. A esfera da consciência por si só parece incapaz de nos auxiliar nisso.

Enquanto houver desencontro não posso prosseguir e quando há o encontro eu espalho meus pedaços por ai.

Manuela Rahal