Vaibe #1 - Royal Village Park 

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Por Guilherme Nasser

2014, na saída de Indaiatuba 
É muito comum naquele condomínio as crianças serem educadas por conta própria. Não pela vontade de querer aprender  - pelo contrário, mas pela necessidade de precisar evoluir. 

Nesses tipos de condomínio essas crianças são criadas de forma cuidadosa. 

Eles sempre tem por volta de doze a 14 anos quando chegam na idade em que ficam parecendo porquinhos cor-de-rosa, isso por que falta sol em suas peles transparentes e oleosas e nos seus cabelos tão fininhos que dá vontade de chorar. Eles planam o dia todo pelo asfalto de ruas pavimentadas com o cuidado que somente o melhor pavimentador seria capaz de pavimentar. São conhecidos pelos funcionários pelos nomes, porque não é de hoje que esses tipos existem por aqui. O condomínio há de ser analisado também porque, se não for o principal culpado de influenciar a natureza  dessas crianças, carrega uma boa parcela de culpa. Quem cuida da expansão é um escritório que fica próximo ao aeroporto de ViraCopos em Campinas, eles são apenas 1 dos 13 que fazem parte de um grupo ainda maior, que monopoliza na região toda a operação de construção delivery. Esses condomínios são instalados nas cidades do interior aos montes e quase sempre ficam próximos a saída, em alguma avenida larga que dá acesso a rodovia. Esses condomínios que nomeiam suas ruas com nomes de cidades dos Estados Unidos.

Na rua Califórnia, que é a única que tem nome de estado porquê ou não sabem que é um estado ou porque simplesmente definiram em pensamento coletivo que California não era mais um CEP e sim um life-status, morava Raphinha, 13 anos.

Estou a postos de um drone pequeno e invisível, na porta do quarto do garoto. Acredito que em palavras eu não conseguiria expressar a exatidão de seu comportamento enquanto enclausurado em sua própria solidão. Por isso o drone invisível.

Eu entro em seu quarto e já dou de cara com a parede com textura grafiatto e um posterzão do Messi fazendo propaganda para a batata Lays. Num ataque de mergulho estabilizado, que é o nome dado a uma manobra do drone, consigo me aproximar rapidamente da mão de Raphinha engordurada mexendo nos botões direcionais do Playstation. O mergulho foi bem hostil, me sinto um pouco um invasor de estar tão perto a ponto de ter que  fechar um olho pra conseguir focar a imagem e analisar a camada de sebo no controle. Giro de cabeça vertical e olho para o rosto dele de baixo pra cima e é assustador de lindo.

Posição de grandiosidade, sorriso com placa de cream-cracker pavimentando os dentinhos. Raphinha é quase um santo dentro do seu templo. Um budinha porque é gordo. Chego a achar que posso um dia entender o porque essa imagem é adorada nesses tipos de condomínios e fico um pouco emocionado. Os porquinhos em formatos de crianças que o pessoal produz por aqui. 

Ele dá uma bela mordida numa cream cracker, parte o coração em câmera lenta, enquanto um pedacinho da bolacha bate na frente do drone o que nos faz passar por uma desventura de estabilidade. Ainda balançando consigo ver o momento em que ele baba farelo com saliva na camiseta azul clarinha do Manchester City e a tevê no volume máximo.

Essa negligência social. Raphinha mora com os pais, numa casa construída em menos de 2 meses, na rua principal do Royal Village Park, na saída de Indaiatuba.  

2019
Quatro da tarde na quarta do dia quatro, o gerador, que tem do lado de fora da nave espacial que virou a minha cabeça depois de queimar brasa, pára de funcionar dois segundos depois que eu acendo um cigarrinho pós banho. Eu tava até deitado ouvindo a chuva, vaibe demais. Numa transmissão feita por um sistema ainda mecânico de envio de mensagens entre duas pessoas, instalada num carro que lembra um pouco o Verona, se não me engano, adesivada com o logo da empresa chamada iMessage4you desenhada com as fontes da Apple, em volto a auras de corações partidos por falhas na textura da tinta do veículo, ouvia-se uma mensagem gravada em voz, da Manuela, me colocando em dúvida sobre algo que eu sempre me perguntei. Voltar a escrever sobre qualquer coisa. 

Isso deve ser algo mais próximo a viajar no tempo e ficar procurando até encontrar alguma coisa que valha a pena em qualquer lugar, porque as vezes quando não se tem nada pra escrever é melhor escrever sobre o nada. 

O texto do menino do condomínio tem a ver com isso: Ao mesmo tempo que o nada é uma idéia de vazio e escassez, ele também pode ser parte terrível do futuro que continua nascendo. 









Manuela Rahal