Profanos? Amém

Por Vinicius Longato

O que pode ser mais importante que a celebração à vida? São tantas formas de manifestação. Tenho certeza que presenciei uma das mais bonitas e simples, e o nome dela é um pouco óbvio: o carnaval.

Lembro na infância dos carnavais folclóricos no interior, daqueles bonecos típicos, pernas de pau, bois tolos tão inebriantes aos olhos de uma criança. Depois, mais velho, preferir o isolamento às multidões, ao álcool excessivo , o que me parecia uma tentativa desesperada das massas em ter alguma espécie de alforria.

Foi depois de anos que entendi, e resignifiquei a minha visão de carnaval.

O dicionário diz: “Período de festas profanas de origem medieval, compreendido entre o dia de Reis e a quarta-feira de Cinzas.”

A tal festa da carne se apresentou para mim, na verdade, a festa da alma.

Em ver pessoas colorindo corpos nus ao vestir suas fantasias

Famílias, “crianças maestras”, idosas crianças, acenos e sorrisos. Com músicos dedicados à nada alem da celebração, e nossa, isso é muito.

Multidões parando, silenciando, e se mantendo imóveis, até encontrar um filho perdido, do ambulante que comanda o pesado. Mas não interessa de quem, qualquer criança seria procurada com o mesmo ímpeto. No carnaval, todos são iguais.

O humano na sua maior representação da espécie, sendo unidade, sem distinção de cor, gênero e classe.

Andar por ruas estreitas carregado/carregando pelos ombros lado a lado, com os pés fora do chão, a música suporta o seu cansaço e te mantém em pé.

Avisando olha o buraco, o postinho, faz cordão braço a braço para deixar a banda passar e segura quem desequilibra, vamos continuar.

Uuu, que aula.

O reconhecimento de um samba enredo como o da Mangueira, vitorioso nas passarelas, mostra que ela não é o curral do samba e escancara a força que precisamos para seguir. União, companheirismo, cuidado, foram os sentimentos que vivenciei nas ruas do Rio de Janeiro, é uma lição que fica para a realidade do dia dia pós carnaval.

Nos momentos de trevas que sejamos carnaval, o do alimento à alma, empatia e celebração à vida.

Botar nosso bloco na rua. Gingar pra dar e vender. Sempre.

Nada mais revolucionário que pessoas unidas e felizes ocupando as ruas!

Se isso é pagão, meu caro Aurelio, que rufem os tambores.

Vamos uivar.

Manuela Rahal