Vaibe #4 - Os Novos Formatos De Todas As Coisas

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Por Guilherme Nasser 

Eu acredito que quando se chega nos 30 anos, você desenvolve finalmente uma capacidade que não se tinha antes. Toda uma mudança de eixo da sua percepção cognitiva, o desenvolvimento de um novo senso crítico, agora também atribuído a uma nostalgia estética do seu passado.

Começa-se a enxergar as grandes mudanças mundiais, já que de certo modo você já tem um certo tempo de existência. A indústria fashion, o design, as ruas, o transporte, as combinações de temperos, o rosto das pessoas. Os novos formatos de todas as coisas. Um novo monolito, composto agora na leveza revolucionária do níquel fósforo, estaciona na avenida principal. Isso afeta desde serviços públicos de infra-estrutura como percepções psicológicas entre os seres humanos. Amantes que não sincronizam mais. Senhoras que erram o ritmo de respiro. Bebês que engasgam com a sopa. Carros quebrados, os tetraplégicos, descompassos, alarmes-falso, as novas pessoas nos mesmos lugares. Afeta também a forma como se fala. A língua presa e as libras no canto da tela. A forma como se vê. Não se morre mais como se morria antes, agora se morre diferente. O que já se foi estabelecido cria raízes tão fortes em nossa cultura que somente a função de existir já lhe torna importante. É como pensar que partidos de extrema direita na Alemanha ainda existem, mesmo que não cheguem a atingir números expressivos de voto. 

Hoje, há uma intenção oculta na ordem das coisas, que vem nos fazer olhar para outras direções que existem, a errar o caminho, a dar voltas em torno de si. E mesmo que a inegável tristeza generalizada paire sobre os ares, os novos formatos também existem para o bem.  Ao mesmo tempo que a onda conservadora se infiltra na política internacional, pessoas conseguem se "definir" deixando as definições de lado, outras conseguem ser ouvidas quando há tempos não eram nem mesmo vistas. E ainda que se ouça a voz do presidente eleito e dos que o elegeram, ainda não excluímos o otimismo e o arrependimento do vocabulário comum da existência. Ainda se pede desculpas, porque ainda se  enxerga caminhos. 

Grande besteira achar que a resposta está em padrões binários, já que os russos vencem os computadores em jogos de xadrez e os robôs nos filmes aprendem a amar. O ser humano pós moderno sabe que o futuro que não chegará nunca, pois por definição, o futuro sempre estará por vir.  

Esses dias um amigo comentou como é interessante quando a letra é em português e a música bate de forma certeira, desarmando completamente as nossas emoções. 

O que o Maurício Pereira sacou na canção Tudo Tinha Ruído foi que o substantivo masculino ruído, que por definição é som ou um conjunto de sons e as vezes, mas nem sempre, desagradável aos ouvidos técnicos ou simplesmente natural quando as coisas existem, em trocadilho com o verbo ruir no pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo, que pode indicar um acontecimento situado de forma incerta no passado, poderia criar uma canção trágica onde o sujeito, ao descrever os sons cotidianos das coisas que o cerca, não havia percebido que tudo tinha desmoronado e só ele não havia sentido.

Manuela Rahal