Amor Nos Tempos de Cólera - Geração Y tem insônia

Por Renan Flumian

Quantas horas trabalhadas dão ao homo não tão sapiens seu valor? Qual valor se mede pelo tamanho da saca de soja temperada de suor, pela faísca que acende o cigarro da espera, entre andaime e estação sincera, pelo cansaço de quem não abriu um palmo de seu querer, quanto pesou a tarde sem resplandecer?

Digam que a rima é fácil, que são pessoas apenas do agora, sem passado, que esta geração não atina, pois é apenas do gozo. Diremos que o bilhete premiado nunca saiu para uma geração inteira. Que depositamos nele as crenças mais infantis, e só infantis. Que o canto que assanhou era puro desafino, e que 2018 parecia um futuro tão futuro, que agora temos um carimbo para as expectativas mais frustradas. Qual caminhão nos atropelou? Era volvo ou scania? Tinha frase bonita ou frase feita de burrice no para-choque?

Quase cem anos, e estamos no mesmo ponto: a altivez, a vaidade, o mostrar-se e ser visto, o querer ser, sem nada ser mais do que o rastro para o outro. Haja dependência: o diploma - as palmas, a colação - as aspas, a carteira de trabalho - num baralho. Peraí, trabalho?

Com pernas de elefantes e relógios adiantados vamos. E tantos. Será surreal, novamente. Nascemos do susto: brasileiros, no cartório. Pedra, papel ou tesoura. Foi a sorte. Escolhemos agora nossa morte, foi na fogueira de nosso último São João. Guardamos no entanto a madeira, afrouxamos a gravata que tanto nos sufocou e nos despedimos da corda que levamos amarrada nos nossos pés.

Renascemos agora do martelo que bate no azeite de dendê e do ronco de fome do coração. Nasce, rebento! É hora, filhote, que a vaca vai pro brejo e o leiteiro é vegano. Agora é depois de antes, agora!

#EleNão #EleNunca