Cruel Summer, 2019

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por Gaía Passarelli

O primeiro sinal da chegada do verão em São Paulo é sair de um ambiente fechado pra rua e encontrar uma parede de ar quente, tão denso que parece que dá para cortar com uma faca.

Os mais velhos lembram que houve um tempo em que o verão era fresco, ainda que com chuvas fortes. Questão de geografia. O lugar onde hoje se encontra nossa megalópole sul-americana é um planalto acima da Serra do Mar, onde estacionam nuvens carregadas de umidade – daí a nossa garoa e as tempestades violentas de todo verão. No planalto, o lugar mais alto é a Avenida Paulista que, convenhamos, não tem nada a ver com verão. E o mais fresco é o Horto Florestal, na Zona Norte, perto da serra da Cantareira, onde fica o pico mais alto da região. Bom, na falta daquele cenário todo e da tradição cultural de um Rio de Janeiro ou Salvador, convém não comparar muito. A gente se vira com o que tem.

A cultura brasileira por muito tempo foi uma mistura da riqueza histórica e costumes de suas cidades costeiras. Mas da terra da garoa chegaram os primeiros arranha-céus, a Bolsa do Café, investimentos de comerciantes estrangeiros, a Semana de Arte Moderna de 1922, a Revolução Constitucionalista de 1932, milagre econômico, mais prédios, bairros de operários cada vez mais distantes do centro, rios sufocados por concreto, aberrações como Paulo Maluf, dinheiro novo de famílias abastadíssimas, sambas tristes e um carnaval meio jeca quando comparado aos outros. Com o tempo São Paulo foi ficando cada vez mais parecida com o Brasil e uma hora nos alcançou o calor. Muito calor. 

Escrevo numa segunda-feira de janeiro com a certeza de que nunca passei um verão tão quente na cidade. O verão apareceu pra mim na Avenida Paulista na última sexta-feira útil do ano, quando eu estava saindo da caixinha de vidro que é a saída do metrô Consolação e PAH! tomei na cara aquele bafo quente, o calor subindo do asfalto e deixando turva a visão da avenida na direção do Paraíso. Andei menos de quinze minutos e entrei em casa direto pro banho frio. Outra desvantagem paulistana é esse hábito de não ter ar-condicionado nas casas, essa crença antiquada de que “ai, mas nem faz tanto calor” (faz sim).

Chuveiro gelado todo mundo tem e água no filtro de barro todo mundo deveria ter – é o melhor método de filtragem de água, e a mantém fresquinha. De vez em quando ainda falta água, mesmo que a imprensa tenha mudado de assunto. A culpa, dizem, é de outra coisa muito paulista: essa fidelidade canina ao PSDB.
São Paulo no verão só é bom a noite. Lembro que gosto do verão só quando passou da uma da manhã e tô com amigas sentada na calçada do botequinho do Copan (que não fica no prédio cartão-postal da cidade, mas fica ao lado) morrendo de rir de alguma besteira, vendo as pessoas ocupando em todo o espaço onde carro não passa e alguns onde carros até passam mas hoje não. Lembro que ali já foi perigoso de noite, nem tem tanto tempo. São Paulo está tão diferente. 

A São Paulo desse verão tem tanta gente vinda de tantos lugares, gente que trabalhou de dia e que de noite quer rua e cerveja gelada e risada alta e música e se pá um vexame suave, uma dor de cabeça leve pra contar amanhã na folga do trabalho, tentando espantar calor dentro da estação de metrô.