George da Georgia

George Nebieridze

George Nebieridze

Por Francisco Raul Cornejo

Os coletivos artísticos que atualmente pululam pela noite das grandes metrópoles têm uma origem bem definida, uma história já consolidada e especialmente uma estética bastante coesa que delimita sua existência entre pares através de um conjunto visual e musical ou, em alguns casos, até mesmo um jargão particular que se estrutura no amplo uso de códigos e jogos de palavras, chegando por vezes quase ao ponto de criar um novo vernáculo.

Tudo vale para estabelecer e consolidar uma identidade e, a partir do momento em que elas encontram um léxico comum e se distanciam na semelhança enquanto se unem na diferença, podemos vislumbrar aquilo que convencionamos chamar de um movimento. Isto não difere muito de lugar para lugar, por mais distantes que estejamos dos epicentros culturais ocidentais, seja em São Paulo ou Tblisi, moldando a dinâmica cultural que, por sua vez, empresta sua vivacidade ao cenário de sua cidade natal.

Modeselektor

Modeselektor

Mas é bastante curioso que uma parte essencial desse repertório por vezes fique aquém e além da iconografia que integra cada um desses núcleos e seu universo conjunto: a fotografia. Claro que muitos fazem amplo uso dessa linguagem para promover seus eventos ou mesmo compor partes essenciais de seu material visual, mas o registro fotográfico acaba por ocupar um lugar relativamente marginal quando pensamos nesses construtos culturais e nas formas pelas quais os apreciamos.

George Nebieridze

George Nebieridze

Mas o olhar, a forma como nossa percepção do momento através do equipamento fixa a luz e as formas no tempo pela sensibilidade de um observador é algo em si extremamente expressivo, já que carrega o potencial pleno de trazer à tona a essência afetiva e cromática que se condensou naquele instante. Muito mais que memórias, uma fotografia cristaliza a riqueza aural desse grão temporal, e por isso ela se torna tão adequada para capturar as nuanças que compõem nossa relação corporal com o mundo, mas especialmente naquilo que surge de tão formoso quando o fazemos seguindo a fluidez compassada da música.

NDRX

NDRX

E também o retrato tornou-se uma das maneiras fundamentais pelas quais percebemos a existência de um artista - músico, performer ou DJ - fora do âmbito do seu fazer artístico, fora da bruma de glicerina, dos feixes de luz, dos queijos, palcos e dos painéis de LED iluminando rostos concentrados ou extáticos. Isto se dá de formas as mais triviais, mas de forma mais proeminente naquele formato comercial que conhecemos como press kit, um álbum de retratos que ilustra aquela persona artística de um modo palatável e versátil o suficiente para que figure em veículos de imprensa.

Contudo, como em toda linguagem plástica, aqui também cabe uma abordagem mais rebuscada, tanto conceitual quanto visualmente, desse emolduramento do semblante e  do olhar que dialoga com o do fotógrafo diretamente e é desnudado de intenção no processo, chegando a uma condição de contemplação quase plena ou de desafio quase incontestável.

Bassiani no amanhecer

Bassiani no amanhecer

A noite paulistana teve seus olhares marcantes, profissionais/artistas que não só imprimiram uma forma específica de contemplar e ser contemplado que marcou uma época ou se tornou parte indelével de como a entendemos, vemos e recordamos atualmente. E nossos dias e seus coletivos tão característicos também possuem os seus, artesãos tão essenciais no que fazem como únicos no que dizem sobre nossos tempos, movimentos e sentimentos através do domínio de seu ofício.

Das grandiosas fotos de Fábio Mergulhão e sua pegada quase esportiva para exprimir a energia de momentos musicai cruciais dos noventa e começo dos 2000 até esta coorte que apresenta talentos ímpares como Daniel Wierman e sua poética das formas e sombras, Felipe Gabriel (El Proyector) e sua incomparável habilidade em retirar beleza de praticamente tudo para que aponta sua câmera, a crew da I Hate Flash e sua lúdica interpretação das matizes que fazem de meros instantes algo belo e notório.

A cena de Tblisi, a capital oriental do Techno hedonista localizada aos pés dos Cáucasos, também possui suas idiossincrasias e personagens, instituições e princípios que fazem dela um lugar peculiar, além de um dos mais novos epicentros europeus da música eletrônica. Assim, ela também traz em seu bojo uma estética peculiar que surge da conjunção de inúmeros componentes, todos afinados com seus princípios e, no caso dessa forma artística de que falamos, tem em George Nebieridze seu intérprete.

DVS1

DVS1

Uma certa inocência que oscila entre o voyeurístico e o pueril unidos um forte senso de apreciação por seus sujeitos (não objetos) orienta sua lente e uma delicada e franca forma de absorver a luz, deixando-a deslizar por sobre os contornos do que ele retrata e registra.

Ele é um componente central da estética do Bassiani e de todo o movimento rítmico-político que ele representa, tanto em seu lar quanto pelo globo, sendo muito do que nos espera neste sábado quando o club georgiano se funde à ODD para celebrarmos todos juntos uma visão de mundo que é compartilhada por ele todo em cada pista de liberação e respeito às diferenças.




Manuela Rahal