Caterina Barbieri

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Por Francisco Raul Cornejo

A repetição é um componente central de muitas de nossas atividades, das rotinas que nos regem aos ritmos que nos movem, operando uma função vital de enquadramento de nossos movimentos e de nossa percepção do tempo. Ela define realidades tanto no âmbito corporal como sensorial, sendo exatamente esse duplo efeito que é mobilizado em atividades ritualísticas desde os primórdios de nossa vida coletiva. A música basicamente torna esses princípios seus fundamentos e através dessa força elementar da repetição constrói universos próprios que são celebração de tudo que está por trás desses movimentos: a vida. 

Estas são platitudes há muito sabidas e operacionalizadas por nossos antepassados e que constituem a matéria bruta a partir da qual Caterina Barbieri constrói densas realidades tonais e rítmicas para explorar seus efeitos em nossa consciência. Um projeto ambicioso que a coloca entre uma das mais novas representantes de uma tradição de experimentalismo musical eletrônico que tem em notáveis mulheres alguns de seus maiores expoentes e pioneiras.

Caterina é uma italiana radicada em Berlim que tem nos sintetizadores sua ferramenta de ofício e na alteração de estados de consciência seu material criativo. Ela se filia a uma tradição que tem na manipulação de ondas sonoras e cerebrais sua base e cujas origens se confundem com as da própria música eletrônica. 

É essencialmente uma musicalidade repleta de sutilezas que cultiva o transe através da reiteração de temas e privilegia a delicadeza tonal de sons gerados por essas incríveis máquinas que transformam pulsações elétricas em estímulos que são captados pelo nosso maquinário sensorial das mais diversas formas. Isso pode parecer simples, mas como toda a arte mais transformadora e inovadora que conhecemos (e eventualmente criamos), é um feito dos mais admiráveis.

Em cada uma de suas peças, ao mesmo tempo em que os esforços necessários para que sejam produzidas se esmaecem no denso tecido do material sonoro, fica transparente sua singular habilidade no manejo de frequências e harmonias, cristalizando-se de modo tão vigoroso como elegante em obras de extrema simplicidade e beleza. Nada menos que a regra para esse brilhante grupo de mulheres que não se cansam jamais de revolucionar o terreno em que grassam.










Manuela Rahal