Cada Qual Um Explorador

Por Francisco Raul Cornejo

Certa vez, uma amiga belorizontina me disse que era bastante incômodo esse lance de São Paulo querer colonizar o Brasil com festivais e coisas afins. O fato de ela estar se referindo a um evento que na verdade era gaúcho em sua origem e já realizara edições em diversas partes do país foi algo extremamente revelador e, claro, inegavelmente desconcertante, mas que, para além do paroxismo risível, apontava para algumas nuanças não somente distintivas da relação protecionista dos mineiros com relação a sua cultura como também constitutivas da relação predatória dos paulistanos com o restante do país.

 Desde sempre dividindo (ou disputando, dependendo da perspectiva) com os vizinhos cariocas o lugar de epicentro da inovação estética que se origina no influxo de elementos estrangeiros sobre qualquer terreno cultural previamente fertilizado por iniciativas locais, a capital paulista constantemente contribuiu de forma ambígua para o mosaico cultural brasileiro. Se por um lado temos um centro disseminador de vogas globais em território nacional que ajudou a atualizar muitas cenas a partir de seus respectivos contextos; por outro, temos um foco difusor de influências externas que foram possivelmente deletérias para o desenvolvimento individual de cada uma delas.

Este é um dilema que marcou praticamente toda e qualquer empreitada oriunda das terras paulistanas que tenha se atrevido a tentar replicar êxitos para além de seu território. Contudo, sejamos justos, a história do afã colonizador simbólico de São Paulo e suas supostas conquistas se assemelha muito à da Rússia e seus feitos marciais geopolíticos: desempenho pífio em invasões de terras estrangeiras, mas praticamente invicta na proteção de seu próprio território. Claro que deve ser levado em conta que essa é uma visão bastante peculiar da dinâmica cultural e em muito tributária de um certo chauvinismo que vê na estabilidade da inércia e não na continuidade dos fluxos a parte mais valiosa da riqueza desse universo, especialmente quando o assunto é música. 

Basta perguntar a qualquer um que realmente viva dela, por ela ou para ela se esse esquematismo se sustenta em algum momento que a resposta será obviamente negativa por um simples motivo: é através dessa polinização cruzada que muitos dos mais incríveis acontecimentos criativos ocorrem no interior daquele fértil terreno cultural. E é este simples fator o impulso primordial que impele alguns dos coletivos mais ativos que sustentam o  auspicioso panorama atual dessa metrópole a percorrer o vasto território nacional, realizando eventos com diversos parceiros locais. 

E, se fazer isso de modo pontual já exige certa coragem, decidir se lançar em uma turnê pelo território nacional demanda ainda mais, como planejamento e todo o relacionamento que implica num intercâmbio mais duradouro com cada grupo de agitadores e as respectivas cenas nas quais se inserem. Neste tipo de empreitada a Gop Tun certamente não é pioneira, mas inegavelmente é a que mais dedicou esforços até aqui para estabelecer um mínimo de reciprocidade nas suas relações com aqueles pares.

Contando até aqui duas datas em cidades que são bastiões musicais em regiões bastante amigáveis ao conteúdo musical que o coletivo paulistano procura divulgar e de certa forma já familiares com seus propósitos: Florianópolis e, ironicamente, Belo-Horizonte, tendo na primeira a comprometida trupe da Troop e na segunda a exuberante galera da 101Ø como respectivos hospedeiros. Ambos os eventos atraíram um público que até encontra certa semelhança com aquele que a Gop congrega quando os realiza em casa, o que aponta para certa homogeneidade sudestina entre os aficionados pelo som que ela promove mesmo além das fronteiras de São Paulo. O próximo será no Rio, tendo a jovial Festa Até As 4 como sua parceria carioca. 

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Ter Floripa como primeira parada foi estratégico, já que o contato com os agitadores da cidade foi estabelecido há algum tempo sendo já o terceiro evento realizado em conjunto com a Troop e resultou numa noite memorável que em muito se distinguiu do que a capital catarinense é usualmente conhecida em termos de musicalidade e energia na pista. Por sua vez, a aventura belorizontina, também já respaldada por intensas experiências prévias, superou as expectativas de todos os envolvidos, contando até uma contusão que vai desfalcar o time paulistano em seu début no Boiler Room do Dekmantel holandês.  

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Mas, infortúnios à parte, eles conseguiram pintar um panorama auspicioso que ainda vai ser desenvolvido pelo decorrer do ano e terá como sua culminação o XAMA, festival de réveillon realizado pela Gop na Península de Maraú na Bahia. Um destino final que figuraria de forma um tanto dissonante em meio ao restante do itinerário, não fosse pelo fato de sua rota incluir focos disseminadores respeitáveis dos mesmos grooves esquisitos no Nordeste e Centro-Oeste, chegando à capital desta nossa imensa massa brasileira e às belas terras pernambucanas.

Assim, por mais que alguns dos temores de minha amiga tenham algum fundamento no esquema geopolítico-cromático mais amplo das coisas, há mais motivo para comemorar que comiserar esse tipo de empreitada exploratória. E não apenas porque as intenções por trás dessa jornada são as melhores, afinal o inferno está recheado delas, mas principalmente porque a pujança que esse território guarda é ela mesma fruto não do rechaço, mas da absorção de uma infinidade de materiais musicais que dialogam entre si numa polifonia que é a fonte mesma dessa opulência que faz nossa fama mundial.






Manuela Rahal