Sobre Pessoas Incríveis e Células-Tronco

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 Por Bia Bonani

 Há 5 anos eu conheci a Mary.

A princípio uma senhorinha, já corcunda, com seus 80 e poucos anos, cabelo acaju e sorriso fofo. Se não fosse pelos 2 cachorros imensos ao seu lado – sempre – estaríamos aqui falando sobre uma cena bem inofensiva e não imensamente interessante.

Daí ela começa a conversar.

Pera lááá - tem coelho nesse mato, se percebe logo.

Não estamos aqui falando da sua average senhorinha: Mary tem aquele tom de voz de quem sabe o que está falando. Aquele tipo de pessoa que não tem pressa em fazer um ponto, pois sabe que o ponto é todo dela.

A impressão é correta – Mary é muita treta. Além de fofa e apaixonada por cachorros ela é também a leading scientist na pesquisa de células tronco nos EUA. E por ligações familiares bem improváveis, eu tenho o privilégio de encontrar com ela uma vez por ano.

E veja, embora eu seja publicitária, existe uma nerd cientista dentro de mim.

O pouco que sei sobre células-tronco é que são células que ainda não passaram pelo processo de diferenciação celular, portanto podem se diferenciar e especializar em diversos tipos celulares. Bom meu povo, basicamente estamos falando de células coringa que se adaptam e se transformam em qualquer outra célula. O famoso pau pra qualquer obra, body edition.

Não precisa se pensar muito pra entender o impacto gigalomanesco que isso pode ter na nossa saúde – o rim deu uma pifada? Injeta células-tronco, elas se transformam nas células necessárias pra resolver o problema e pronto, rim regenerado, fim de conversa. Se você der um fast forward pra consequência mais utópica disso estamos aqui falando de uma inovação que pode, algum dia, nos tornar imortais – numa onda um pouco mais realista, pode pelo menos alongar beeeem a duração das nossas vidas. Quebrou? Conserta, bola pra frente. Um ciclo eterno de regeneração.

Ainda na minha exploração de publicitária metida a besta eu entendi que uma das partes que mais fascinam os cientistas nisso tudo é que, de alguma maneira, quando injetadas no corpo as células-tronco vão exatamente pra área que precisa de uma mão. Assim, como se tivessem juízo próprio e soubessem aonde precisam colar.

Achei que esse seria um ponto legal pra abordar com a Mary, já que ela estava ali, dando sopa entre um drink e outro na noite de réveillon.

“Então Mary, como é mesmo que as células-tronco sabem pra onde ir?”

Mary olhou pra mim levemente surpresa que minha pergunta não era assim, tão imbecil. Não sabia bem se me sentia lisonjeada ou ofendida, mas enfim, estava tudo valendo.

“Pois...

Diz ela.

Temos feito a descoberta fascinante que na verdade a inteligência vem da célula danificada, e não da célula tronco inserida”.

Gente. Vocês tão entendendo?

O tecido, órgão, osso ou até sangue que precisa de um fix up comunica de alguma maneira pra célula coringa que precisa de ajuda e PÁ, lá vai a célula tronco se transformar em qualquer coisa que precisar.

Como isso acontece e os meandros nesse assunto acho que vou precisar de infinitos réveillons com a Mary pra entender. Mas, o que posso dizer é que nas minhas ondas filosóficas acho isso lindo – o poder de algo danificado de pedir ajuda e portanto, se regenerar. Taí uma lição pra todos nós.


Manuela Rahal