Preconceituoso É o Teu Nariz

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por Fernanda Lima

Sissel Tolaas é uma personagem bem descolada, e já era assim antes da palavra descolada ser banalizada, e que dedicou sua vida a estudar um interessante aparato de pesquisa que temos acoplado ao nosso corpo: o nariz. Aos 58 anos de idade e com seus cabelos ainda loiros e perfeitamente escovado com bobs, Sissel continua passando pela vida cheirando o mundo – literalmente. Aonde quer que ela vá ela costuma levar seus principais instrumentos de estudo, as narinas, para encontrar os ares dos bairros, telefones públicos, corpo de pessoas, produtos campestres africanos em feiras e constitui uma imensa biblioteca olfativa na sua memória, e outra na sua casa em Berlim.

A biblioteca olfativa de Sissel, que funciona como um braço da International Flavors and Fragrances Inc., tem cerca de 7 mil aromas que foram recriados e 2,500 moléculas armazenadas em garrafas de vidro que são um resultado de ‘sete anos caminhando, viajando e cheirando partes do mundo’, como ela disse ao The Guardian. E enquanto a I.F.F desenvolve em Nova Iorque fragrâncias para Ralph Lauren, Prada e companhia, em Berlim Sissel trabalha desenvolvendo o aroma azedo de armários de vestiário sem ventilação de academia. Também conhecido como suor das axilas masculinas.

Há doze anos Sissel foi generosamente proclamada como uma das figuras mais controversas da indústria de fragrâncias pelo The New York Times, e levando em consideração alguns dos projetos desenvolvidos pela cientista–barra–artista a palavra controversa lhe cai bem. Sissel não usa perfumes, pelo contrário, ela celebra o aroma natural das coisas e a história que eles contam.

Em um trabalho para a Adidas, Sissel acabou encontrando uma bota usada do David Beckham e ao detectar uma molécula similar a encontrada em queijos, criou uma roda de queijo inspirada no suor do jogador, que foi servida em um jantar para VIPs da empresa.

Em um museu em Desden, na Alemanha, Sissel chegou a recriar os aromas da primeira guerra mundial para reconstruir o momento. Ela diz ter aliado suas leituras em livros de história a sua imaginação e seu conhecimento de aromas para chegar no resultado de criar algo como um gás de mostarda, que chocou as pessoas logo na entrada do museu, e algumas passaram mal. Ela também disse que nunca fará a segunda guerra mundial.

Mas Sissel não tem o mesmo olhar – ou seria olfato? – para os aromas, do que a maioria de nós temos. De acordo com a artista, aromas contam histórias e nossos olfatos são frequentemente negligenciados. Seus projetos artísticos giram em torno de reconectar as pessoas com seus narizes. Sissel disse ao City Lab que na cadeia evolutiva nossos narizes são primordialmente utilizados para encontrar comida, abrigo e parceiros. Mas que agora nós somos convidados a cheirar produtos comerciais, perfumes, etc, mas ninguém nos pede para cheirar uma cidade, ou uns aos outros. De acordo com ela, ‘isso não é justo com o corpo, com a humanidade ou com o mundo.’

Além de defender que as pessoas cheirem mais, ela trabalha a relação entre aroma e preconceito, e como mudar a perspectiva sobre o aroma e o olfato pode ajudar a resolver problemas do mundo. Em uma entrevista para o New York Times, Sissel disse que nós podemos detectar até 15 mil cheiros diferentes, mas só sabemos dizer ‘esse é bom’ ou ‘esse é ruim’ ou então nós usamos metáforas ‘tem cheiro de cachorro’, ‘tem cheiro de maçã’.

Sissel acredita no potencial social de seu trabalho, e em um projeto ela tirou uma amostra do cheiro de mendigos que moram na rua, reproduziu o aroma, e colocou em embalagem de perfume com garrafas de cristal. Essas embalagens foram entregues a crianças. Com a recontextualização desse cheiro o nojo foi substituído pelo interesse, e quando a origem do cheiro foi revelada as crianças mudaram suas atitudes com mendigos. Ela disse ao Icon Eye, que relatou esse projeto, que ‘tudo é muito visual. É interessante que eles cheirem e nem sempre olhem. Essa é a nossa chance para a humanidade… nós podemos trazer respeito de volta ao utilizar outros sentidos. Respeito pela cidade. Respeito por idosos. Respeito por comida… Hoje em dia tudo é esterilizado, protegido… nós estamos perdendo muita informação vital ao fazer isso.’

Marcela Zanon