A Chapada Diamantina Quer Você

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Quão ridículo é existir um lugar dessa magnitude dentro do Brasil e eu ter demorado mais de 30 anos para conhecer? Num sei. Só sei que é para você se sentir ridículo e se agilizar para viver isso enquanto estiver vivo.

Muito difícil colocar em palavras, mais difícil ainda em fotos. Nada é fiel àquilo, nenhum relato chega na unha do dedinho do pé da Chapada Diamantina.

Para não me estender, quero destacar dois momentos que vivi junto com a Marcela e Vinicius, meus parceiros maravilhosos nessa jornada.

Vale do Pati

Um dia uma moça bahiana casou e ganhou de presente alguns milhares de hectares em formato de vale. Seu pai disse: "seja feliz, minha filha, é tudo Pá Ti". E a sortuda ganhou apenas o Vale do Pati, roteiro também conhecido como a Compostela Brasileira.

Difícil? Sei lá qual adjetivo usar. Mais apropriado seria uma experiência espiritual, mental e bem dolorida, fisicamente falando.

Quer mamata? Volta pra Moreré.

Existem algumas formas de fazer esse rolê, nós escolhemos o de três dias para começar. Trilha que te impressiona, conforta, assusta e te faz ser uma pessoa melhor. Um caminho onde você deixa um monte de coisas desnecessárias para trás, até chegar à Igrejinha, depois de subir e descer muitos metros, machucar os pés, as mãos, o joelho, o cotovelo, a testa. Passa pela caverna, testa todas as suas articulações, toma um banho geladão, come um banquete maravilhoso, pois você ainda vai encarar o castelo do chefão cedinho no dia seguinte.

Castelão - uma subida de mais ou menos 2h30, teste cardíaco brabo, para enfim chegar à icônica vista do vale como um todo. Yes, we did it, endorfina bombando, trilha sonora de superação tocando no seu imaginário.

Antes de ir, saiba: na Chapada, tudo que se sobe, se desce e ninguém vai te carregar nas costas não. Pode chorar, não tenho como secar nada agora, olha pro meu bigode suado e segue andando.

Cuidado para não se emocionar na descida, pagando de super herói, suas articulações não tem mais 22 aninhos. Mas alguém nunca esquece o Tiger Balm, viva.

Medo? Não olha pra baixo não. Enfaixa o pé com gaze, puxa a meia pra cima e segue andando.

Não consegue respirar? Consegue sim, eu seguro sua mochila um pouco, mas depois você me faz um shiatsu.

No Vale do Pati, a regra é clara: a troca é necessária, a fogueira também e o olhar de orgulho do seu amigo é ouro.

Ivo e Maria

Quando pisei no Vale do Capão, minha amiga Tati me disse: você não pode ir embora sem comer a comida de Ivo & Maria.

Taokey.

Pensamos que era só mais um dos maravilhosos restaurantes daquele Vale. Btw, se come MUITO bem pela Chapada, baita qualidade, tudo orgânico e fresco.

Então fomos até a porta da casa deles e pedimos para almoçar. Maria disse não, que já havia muitos grupos naquele dia  e que ela não daria conta. Nos oferecemos para ajudar a cozinhar e lavar a louça. Ivo pediu que Maria deixasse - acho que ele foi com a nossa cara. Maria, um pouco emburrada, aceitou e pediu para voltarmos às 16h.

Vale dizer que a casa deles tem uma das cachoeiras mais lindas que já vi no quintal, então fomos dar um mergulho e voltamos pontualmente para ver qualé que era da famosa Moqueca de Palmito de Jaca.

Depois de duas garfadas, nosso vocabulário ficou pobre e só repetíamos: MANO, MANO, MANO, o que é isso???

Eu até agora não sei explicar, mas talvez tenha sido uma das melhores refeições da vida.

Ahhhh, depois dessa etapa, fomos agraciados com uma pequena panela de barro com o nhoque feito de milho. E, mais uma vez, surra de MANO, MANO, meu deus, como ela faz isso???

E, depois de recolher os pratos (que quase quebramos de tanto xuxar e raspar), batemos um papo com Ivo, que contou sua história, de quando veio morar em São Paulo. Aquele velho conto das oportunidades da cidade grande, que o engoliu, e assim acabou virando cobrador de ônibus, entre Guarulhos e Largo da Batata. Foi nesse minuto, que ouvimos uma das frases mais sábias da viagem:

"Viver em São Paulo sem o dinheiro da passagem é como viver numa prisão".

Um dia, Ivo conseguiu juntar a grana para voltar para o Vale do Capão, casou com Maria e nunca mais voltou para São Paulo. Aprendeu a valorizar sua terra, sua gente, sua cultura e tudo isso me remeteu àquele trecho onde Mano Brown diz:

"As vezes eu acho,

Que todo preto como eu,

Só qué um terreno no mato,

Só seu,

Sem luxo, descalço, nadar num riacho,

Sem fome,

Pegando as fruta no cacho".

Ou seja, quando for à Chapada, não deixe de visitar esse casal, todos nós precisamos de uma dose reforçada de jaca e amor <3.