Entre Brexit e Hayv Kahraman

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Por Isabel Sachs

Em mais uma semana crítica para essa movimentação caótica que se chama Brexit, e após a Art Dubai, voltei a pensar em Hayv Kahraman.

Mudei para Londres em 2014, uma das cidades mais diversas do mundo, onde se falam mais de 300 línguas. Já em 2014, se sentia um aumento da islamofobia, apesar da presença muçulmana até antes do século XVI. Confesso que, até morar aqui, não conhecia muitos artistas do mundo árabe e muçulmanos; e muito menos muçulmanas. Foi uma grata surpresa conhecer Hayv na Third Line Gallery, logo na primeira Frieze London.

Nascida em Bagdá, Hayv tornou-se refugiada com sua família na Suécia aos 11 anos, Kahraman gradualmente perdeu parte do seu domínio da língua árabe e sua identidade iraquiana, o que a levou a criar a série “How Iraqi Are You” (Quão Iraquiano Você É).

Se você bateu os olhos e pensou: “pinturas tradicionais a óleo sobre linho”, você está certo – e errado.

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Uma das grandes delícias da arte é exatamente isso: forçar o nosso olhar para um só objeto, por alguns minutos, para absorver todos seus detalhes, em um mundo de “scrolling” ininterrupto.

A técnica de Hayv pode ser tradicional, mas esses artefatos costumavam detalhar homens – e não mulheres brancas, em clara alusão à uma experiência feminina universal, de violência e objetificação.

Claro que estas mulheres brancas não são por acaso. Hayv declarou em algumas entrevistas que a maioria da sua audiência é branca, e de certa forma privilegiadas. Seu trabalho ativa formas de mediar imagens do sofrimento desses corpos geograficamente distantes, para uma audiência branca. Uma ferramenta simples, sutil e brilhante para se comunicar com o espectador.

A importância da conexão entre corpos e objetos é central no seu trabalho, e talvez, por isso mesmo tão cáustica. Cada mulher é um autorretrato; Kahraman se fotografa em uma variedade de poses antes de transformar-se em personagens bidimensionais.

“Quando entro em meu estúdio, percebo que estou construindo meu próprio exército de mulheres”

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Manuela Rahal