Me Tiraram Da Bahia

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Por Manuela Rahal

Já escrevi algumas vezes aqui sobre dilemas da vida pós-apocalíptica-adulta, especialmente para um recorte etário que tenho contato diariamente - entre os 27 e os 35. Em tempos tão instáveis, já passamos por quase um ano de deep dive em assuntos bem conflituosos para essa geração.

Os protocolos sociais, mais do que ultrapassados, acabam atrapalhando demais a evolução de grande parte das pessoas que vive essa vida loka atual, e o resultado não é novidade para ninguém: estamos todos ansiosos, lutando contra novos traumas e praticamente deixando de ser humanos.

A treta começa ali atrás, quando você é meio que obrigado a escolher o que quer fazer da vida com apenas 17 anos, quando a sua preocupação deveria ser aprender a transar. No caso das mulheres, o negócio fica bem complexo independentemente da bifurcação: se escolhem parar de trabalhar um pouco para formar uma família, vai ser quase impossível voltar para o mercado; se escolhem ascender na carreira e de repente lembram de ter filhos, provavelmente vão perceber que seus corpos já não estão produzindo óvulos como suas próprias mães - lembrem-se que a maioria delas engravidava com 20 e poucos.

No caso dos homens, também temos uma série de questões, mas como não cabe a mim falar, vou dar apenas o exemplo de que eles tem que se reinventar e readaptar em uma sociedade feminista, que luta pela igualdade de gêneros. Não parece tão problemático, mas deve ser um tanto quanto frustrante, pois um comportamento que era absolutamente normal e inquestionável, passa a ser absurdo. Pane no sistema e, logo, se afastam e ficam medo de se relacionar. Foram criados de um jeito, daí levam um sacode coletivo e tem que renascer como Fénix, porque sem tempo irmão.

Hoje mesmo escutei uma de um amigo: "eu tô exausto com isso tudo, as vezes minha mão dorme de tanto que eu rolo a timeline do insta e eu quero marcar um date, mas não tenho vontade de chamar ninguém".

Ou seja, ninguém está feliz, nem no stories, pois ninguém mais acredita no stories. A sensação é de que você passa um tempão escalando, criando rituais, meditando, tomando chá, se alimentando organicamente para, de repente, ficar com a sensação de que TE TIRARAM DA BAHIA.

Afinal, meus amigos, a Bahia dura pouco e o forró está desalinhado quase que o ano todo. Tem dias em que você pode tentar dançar um forró com uma pessoa nova, mas vai pisar no pé dela e a paciência hoje é escassa, ninguém dança forró duas vezes com a mesma pessoa. Tem dias em que você poderia ser surpreendido pela vida holística e os encontros improváveis, mas está olhando para o telefone, para ver se alguém dos tinders da vida te respondeu.

Eu já não danço mais forró e agradeço por ter grupos de amigos que viraram verdadeiros grupos de apoio, quase que um A.A.

Se alguém aí se sente fora da Bahia, levanta a mão.

Tem mais gente falando sobre isso, dá um check no podcast com Marcela Ceribelli e Luiza Brasil sobre ansiedade, da Obvious Agency

E corre nos stories da Madama Broona , que nos pede para “lutar pela nossa humanidade, pelo seu direito de ser imperfeito, não evite desconforto a qualquer custo.


Manuela Rahal